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Encaixotando a vida

Estou embalando tudo em caixas recicladas: roupas, sapatos, acessórios, panelas, louças, quadros, objetos, livros, músicas, sonhos. Decidi que desta vez só vou levar o que é meu de verdade… É difícil, sabe?
Por muito tempo guardei sonhos que não eram meus. Talvez para preservar por mais um tempo os sonhos de um amado que foi embora cedo demais. Manuseio seus livros, LP’s, vídeos e penso: ”estas coisas representam sonhos, sonhos que não são nem nunca foram meus. Uma pena! Sonhos tão intensos e coloridos, mas não são meus. O fato de manter essas coisas comigo não serviu para mantê-lo aqui, do meu lado. Ele se foi, e está numa luz forte brilhante agora me dizendo que eu tenho que deixá-lo partir definitivamente, ele me tranqüiliza dizendo que ele estará não em objetos mas no meu coração, e o coração que ama de verdade não precisa de nada material pra sentir-se vivo, só de amor.
Agora me preparo para outra barra: dispensar sonhos guardados que sonharam pra mim, livros, expectativas, cadernos… Não preciso carregar essa bagagem. Tornei-me alguém um pouco diferente do que você sonhou pra mim pai, mas ainda assim acho que você me amaria do mesmo jeito. Não preciso guardar os livros que você queria que eu estudasse pra ter a sensação que você me aprova e é feliz com a pessoa que eu sou hoje.
Prometi a mim mesma que não ia lidar com fotografias antigas e que não ia chorar, mas quando esvaziei o armário a caixa caiu no chão e todas as nossas lembranças se esparramaram pelo assoalho de madeira… Fui obrigada a lidar com tudo isso e chorei. De amor, de saudade, de raiva por vocês terem me deixado tão prematuramente!Foi então que minha pequena sábia de 4 anos me disse: “- Fica tranqüila mamãe, não precisa chorar de saudade do vovô Neco, nem do tio Ricardo, eles estão aqui (apontando pra cima) bem pertinho nesse céu da nossa cidade, e eles vão proteger a gente pra sempre.” E com isso me veio a certeza: posso passar essas coisas adiante para seguir mesmo adiante!
Anna Carla

Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

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