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La La Land na Terra dos Sonhos

Crédito: Divulgação Summit Entertainment

O espírito dos musicais está de volta!

Em determinada cena do filme, vemos o casal protagonista visitar um observatório. De repente, começam a flutuar pelo lugar, dançando no ar e deixando a aura romântica impregnar o ambiente. A música domina a sequência, e não ficamos nem um pouco chocados. Já estamos dominados pelo absurdo e encantados pelo clima.

E é disso que se trata La La Land, o mais recente filme de Damien Chazelle, depois do igualmente fascinante Whiplash. É o encantamento pelo cinema, notadamente os grandes clássicos musicais. Somos transportados para aquele período em que os filmes não tinham muitas pretensões dramáticas (embora ainda estejamos na projeção dos dias atuais). Uma homenagem embalada por jazz, outra das paixões do diretor/roteirista, que nos lembra como o cinema pode servir como a válvula de escape de nossas duras realidades.

O título vem de Los Angeles (L. A.), cidade onde a arte se destaca no meio de viver dos habitantes. Também traz em voga o sonho, a alegria, o enaltecimento da diversão. Mas como diz o protagonista em determinado momento, “aqui é a cidade onde todos idolatram tudo mas não valorizam nada”.

Assim é que vemos que não só de floreios românticos nos cercam a produção. O filme traz uma séria constatação, que é expressada pelo músico Seb, vivido com obstinação por Ryan Goslin: “O jazz está morrendo”. Vemos novas gerações surgirem e um ritmo que está cada vez mais escondido é este. E não estamos falando da plasticidade jazzística vista em corredores de supermercados ou salas de consultório. A mais pura improvisação e interatividade dos músicos. A vivacidade da execução dos instrumentos, a manifestação máxima do amor musical. Este jazz, sim, está morrendo. Este, sim, é o jazz.

Seb é um romântico. Acredita na paixão e nela se abraça para manter sua vida. A mesma dedicação é vista pelo ator, que teve que aprender do zero a tocar piano. E, nesse tópico, podemos dizer que o filme traz o que de melhor pode ser visto hoje em dia em atuações. Não digo sobre as qualidades dramáticas e de interpretação, mas sim de mostrar atores em sua total atividade. Cantam, dançam, e, evidentemente, interpretam. Tudo em takes contínuos, que mostram a fluidez da mise en scene. E nada gratuito, já que mostra uma narrativa coerente, trazendo seu significado à trama. Se vemos uma determinada pessoa percorrendo cenários, é porque temos que vê-la atravessando momentos e sentimentos. Tudo exposto na tela. Tudo de encher os olhos.

Crédito: Divulgação Summit Entertainment

A propósito, os movimentos de câmera são bastante dinâmicos, acompanhando acontecimentos, personagens e sua respectiva interação. Ora mais suaves, ora mais bruscos. Certamente a técnica é bastante notável no filme. Também a composição das cenas, como cenários, figurinos e iluminação. Vemos cores destacando determinadas pessoas e sentimentos, climas mudando de repente, e até estilos como algo mais teatral com outro mais cinemático e onírico.

E tem as coreografias. É, a dança é um elemento-chave para a narrativa. O diálogo dos corpos, criando afinidades. Embora não tão criativas e ousadas como as de Gene Kelly e Fred Astaire, são igualmente cativantes no sentido de trazer a sagacidade dos musicais.

O sentimento de resgate ao clássico pode ficar um tanto destacado na projeção. E é essa melancolia, a saudade que permeia nossas mentes de tudo o que gostamos no passado. Mas temos que pôr o pé no chão e vermos que não são nada mais do que as memórias que nos mantém ativos e confiantes no futuro. Mesmo não sendo o futuro que desejamos, mas o futuro que desempenhamos, o futuro que prosseguimos com afinco. Talvez um futuro sem jazz e sem musicais, mas sim, um futuro em que podemos trazer às vezes o bom sentimento nostálgico, como agora neste filme.

Gabriel Escudero
Especialista em cultura pop. Cinéfilo graduado em curso de crítica. Pai de dois sapecas. Escreve sobre cinema e entretenimento.

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