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Muito Além da Zoologia: Uma Crítica ao Filme Animais Fantásticos e Onde Habitam

Trazendo superficialidade às criaturas estranhas, o filme foca em temas mais maduros e reflexivos

Fonte: Divulgação

Quem não conhece Harry Potter? Fenômeno literário dos anos 2000, seus livros inspiraram toda uma geração de jovens, que acompanharam seu crescimento na medida em que eles mesmos ficavam mais velhos junto com seus personagens.

E como não poderia deixar de ser, uma adaptação cinematográfica de igual sucesso, com filmes campeões de bilheteria.

Já com toda a dinheirama no bolso, quando há 5 anos tivemos o último filme da franquia sendo exibido, encerrando a jornada do pequeno bruxo, seria uma questão de tempo para que a indústria implacável de Hollywood viesse com novas ideias para perpetuar tal universo.

E assim surgiu Animais Fantásticos e Onde Habitam, uma história original sobre acontecimentos anteriores e com um núcleo de personagens que não se relaciona ao de Harry Potter, que conhecemos tecnicamente como spin-off.

Sim, você leu direito. Animais… é original. Não podemos confundir com o livro lançado com o mesmo título, que nada mais é do que um elemento extra da série literária. Explico: quando Harry Potter entra para a escola, na sua lista de material constava o livro “Animais Fantásticos”, sendo este um apanhado de criaturas estranhas e suas características. Nunca serviria para um filme.

Porém, usou-se seu fictício autor (Newt Scamander) como protagonista e resolveu-se contar suas aventuras de pesquisa dessas espécies mágicas. E isso lá pelos anos 20.

E aí chegamos a um ponto curioso do filme. Ao ambientar sua história há mais de 70 anos, a produção acaba por resgatar todo o charme da Nova York de antigamente, juntamente com essa aura de magia do mundo bruxo de JK Rowling. Pois bem, em meio a tantos blockbusters que retratam a atualidade urbana (filmes Marvel) ou o futurismo do espaço sideral (Star Wars), temos um exemplo que resgata os filmes de época, em um ambiente meio Sherlock Holmes.

Mas vamos aos animais propriamente ditos. Ou melhor, será que vamos mesmo? Digo isso porque justamente o título do filme é apenas um pretexto para tratarmos de outros assuntos que, convenhamos, são mais importantes. Eles estão lá, alguns bonitinhos, outros ameaçadores. Contudo, são o pano de fundo para que nosso protagonista apareça sempre nas horas certas nos lugares certos, e aí resolver questões um tanto mais sérias do que simplesmente um resgate.

A biodiversidade e o tráfico de espécies são tratados superficialmente, como se aparecesse apenas para constar. Não chega a ser um defeito, mas pode deixar o espectador um tanto frustrado.

Agora o que realmente vemos sendo discutido no filme é, em primeiro lugar, a condição marginal das minorias da sociedade. Aqui os bruxos são a perfeita analogia com imigrantes, homossexuais, negros ou qualquer outra categoria que seja assemelhado. A segregação quanto ao seu papel como cidadãos, sendo relegados a viverem escondidos e desamparados, é o cerne que transita toda a narrativa da produção. Lembra um pouco a saga X-Men, com os mutantes sendo lá o que os bruxos são aqui. Inclusive as motivações do vilão são bastante assemelhadas com as de Magneto.

Fonte: Divulgação

E ambientar a trama nos anos 20 é bastante acertado, eis que estamos diante de época pós primeira guerra, com o boom de imigrações acontecendo principalmente para os Estados Unidos. Evidentemente que a metáfora existente entre o mundo bruxo e o real, com suas relações xenofóbicas fica mais destacado por aqui. Não que seja uma ideia original, já que podemos verificar perseguições de minorias por todas a história do mundo (e X-Men retratou isso já nos anos 60, 70, e por aí vai).

Enfim, se estamos diante de uma nova saga de mais um exemplo do gênero de super-heróis, ainda não se pôde inferir nesse primeiro filme. Mas muito provavelmente, o caminho a ser trilhado seja esse mesmo.

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Um outro tema bastante interessante retratado no filme é o da depressão. Temos personagens que, de tanto serem reprimidos por serem diferentes do que a sociedade exige como padrão, se isolam e acabam por criar uma entidade destruidora, que sem exceções, acaba matando seu hospedeiro.

Evidente que, em um mundo fantasioso, é um bruxo que reprime com magia seus atributos. Mas podemos perfeitamente levar tal entendimento para nosso mundo real, e dessa forma, observar de um modo mais cauteloso e compreensivo, uma pessoa próxima que venha a apresentar tal condição.

Fonte: Divulgação

E aqui passamos para o destaque de qual seria efetivamente o público-alvo deste filme. Será que, por constar animais esquisitos (porém adoráveis) e a saga resgatar o universo Harry Potter, onde acompanhamos a infância e maturidade do pequeno bruxo, estaríamos aqui diante de um filme infanto-juvenil? Não tanto, já que o trabalho de temas tão delicados como depressão e minorias da sociedade estão mais voltados para os maduros. Porém, os pequenos poderão se divertir naturalmente, com pinceladas de cenas de ação e situações engraçadas.

Mas o que acontece é que dá pra perceber que a saga continua acompanhando seus espectadores (não mais leitores), para uma fase mais adulta, com trama exclusivamente voltada para os já formados. A escola foi deixada para trás, dando lugar a departamentos governamentais, mas nada que nos deixe distante de aprendizados da vida. Aprendizados esses que, mesmo retratando situações de 70 anos atrás, mostram-se sempre atuais.

Gabriel Escudero
Especialista em cultura pop. Cinéfilo graduado em curso de crítica. Pai de dois sapecas. Escreve sobre cinema e entretenimento.

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