comportamento

Fale sobre morte com seus filhos

Só há uma certeza na vida: a morte.

Precisamos aprender a lidar com a morte e o quanto antes isso acontecer, melhor.

CC0 Public Domain - Pixabay

Tendo isso em mente,  falar  de morte com os nossos filhos é uma necessidade. Pode parecer uma coisa simples mas não é, especialmente porque para nós, adultos, falar de morte ainda é um “tabu”.  A morte deveria deixar de ser um assunto tabu e fazer parte do nosso cotidiano, penso que somente assim, na oportunidade da morte de alguém próximo, seria muito mais fácil lidar com ela.

Depois de lutar contra um câncer na bexiga desde fevereiro, meu sogro morreu no último dia 13 de maio.  Foram mais de 3 meses na UTI de um hospital, com visitas restritas e muito sofrimento para toda a família.

Meu sogro era muito querido por todos, especialmente pelos meus filhos que estranharam bastante saber que o vovô estava “dodói” mas que o hospital não permitia visitas de crianças. Minha filha que está com quase 12 anos e já teve iniciação religiosa, teve uma compreensão do que estava acontecendo um pouco melhor do que o irmão, que tem apenas 5 anos, e não entendia muito bem porque no hospital onde o vovô estava não dava para ver o jogo do Palmeiras.

Eles acompanharam todo o processo, do vovô adoecer, ficar hospitalizado e dessa doença se agravar, o que segundo psicólogos e especialistas deveria facilitar a abordagem do assunto. Tudo na teoria é muito lindo.

Os especialistas dizem que é mais fácil abordar o tema morte quando todo o processo é acompanhado abertamente,  como o feijãozinho que eles plantam no algodão no prézinho:  ele brota, nasce, se desenvolve, vive por um tempo, começa a perecer e morre.

Aqui em casa temos peixinhos, já tivemos vários, hoje só temos um. Sempre que morre algum, apesar de evitar que eles presenciem o “funeral”, eu falo abertamente que o peixe morreu ou como diz meu filho “foi para o céu dos peixes”.

Na prática, quando morre um familiar próximo, é difícil para nós adultos, envolvidos emocionalmente com a situação, falar abertamente sobre a morte. Especialmente se nós mesmos ainda não elaboramos estas questões internamente.

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Para minha filha eu abracei e disse: “acabou filha.” Ela me perguntou: ” o quê?” Eu respondi: ” o sofrimento do vovô, ele morreu esta madrugada, depois nós vamos nos despedir dele no velório e prestar solidariedade a vovó.” Com os olhinhos marejados ela me respondeu: “está certo.”

Já com meu filho…foi diferente. Fiquei cheia de dedos, não sabia como começava, um constrangimento sem tamanho! Comecei rodeando o assunto assim: ” Filho, lembra que o vovô tava no hospital muito, muito dodói? Então, o Papai do Céu achou que ele já estava sofrendo demais e levou ele pra morar no céu com ele.” Meu filho me olhou fixamente e perguntou: “então a gente não vai mais ver o vovô?” Eu respondi que sim e ele emendou: “mas ele também não vai ficar doente nunca mais?” E  com meus olhos cheios d’água com a sensação de que tinha conseguido transmitir a mensagem respondi: “isso mesmo filho! E a gente vai se despedir dele.”

Já no velório ao se deparar com minha cunhada e minha sogra bastante abaladas minha filha chorou bastante e meu filho parecia lidar com a situação de um jeito super maduro para idade. Ele entrou onde estava o caixão e cada um que chegava ele mostrava a porta e dizia para a pessoa ir lá se despedir do vovô.

Até que meu sobrinho mais novo,  adolescente, ao entrar ficou muito abalado e chorou bastante. Assim que ele saiu meu filho se aproximou dele e perguntou o porquê da tristeza do primo e ele respondeu: “estou assim porque o vovô morreu, e a gente nunca mais vai ver ele de novo.” Pensei: ele falou a palavra e agora?

Para minha surpresa meu filho lidou de um jeito tão maduro e disse: ” a gente nunca mais vai ver ele de novo mas também ele nunca mais vai ficar doente!” É lógico que depois de consolar o primo, a avó, a madrinha ele também chorou bastante e se permitiu entristecer pela saudade antecipada do vovô.

Com isso tudo cheguei à conclusão que a dificuldade de lidar com essa situação era minha e não dele. Apesar de ter perdido meu pai aos 16 anos e meu irmão mais velho aos 19, confesso que ainda tenho dificuldade em elaborar essa questão.

Meu conselho é fale sempre  que possível com as crianças sobre vida e morte. Esse assunto tem que deixar de ser polêmico para os adultos facilitando assim a abordagem com as crianças quando a necessidade surgir.

Anna Carla

Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

2 thoughts on “Fale sobre morte com seus filhos

  1. Muito forte, mas totalmente verdade. Infelizmente, desde a primeira morte que “presenciei” na vida, aos 10 anos, nunca houve uma conversa por parte de alguém próximo. Pela criação religiosa, apenas que “foi morar com Deus”, mas nada que me explicasse muito. E mais infeliz ainda é o fato de que lido ainda pior com isso atualmente, com meus 21 anos – passei a temer a morte, dos outros, a minha; lidar com água gelada na boca e sensação de desmaio.
    E isso é muito triste porque todos vamos morrer – não é pra ser visto como algo ruim. Muitas pessoas morrem de formas trágicas, é verdade, mas todos nós temos de morrer de alguma forma, e aí é que está o ponto de vista e amadurecimento dos envolvidos.
    Parabéns pela criação dos seus filhos, e meus pêsames à família.

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