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A Fantasia com a qual me Escondo de Mim Mesmo

No poema mitológico grego “Odisseia”, Ulisses (também chamado de Odisseu) é um navegador que tem seus marinheiros enfeitiçados por uma feiticeira chamada Circe, que após um farto banquete os transforma em porcos, mantendo apenas a inteligência intacta. Ulisses imediatamente se esforça ao máximo para quebrar o encanto enquanto os porcos resistem desesperadamente. Ao conseguir recuperar um de seus marinheiros, é furiosamente insultado por tê-lo devolvido à vida odiosa que levava antes, dizendo que como porco era feliz por poder chafurdar na lama, comer, beber, grunhir e guinchar e estava livre de problemas e dívidas.

Dois mil e oitocentos anos atrás a mitologia já falava de como o ser humano é capaz de buscar e preferir meios para fugir das próprias responsabilidades e do que existe para ser enfrentado.

Cada vez mais temos buscado algo que nos anestesie da realidade. Cada vez mais apelamos para qualquer coisa que possa como mágica nos transformar em algo diferente e incapaz de ouvir o que existe do lado de dentro.

Nessa busca incessante por estar preso no porco livre de problemas, nos afogamos em um copo de cerveja (que nela esteja a minha solução), na balada louca (que casa é essa, onde é que eu vim parar?) e dizemos que a melhor coisa é poder viajar (e se livrar do stress).

A verdade é que estamos em um estado permanente de competição e suspeita com os outros e com nós mesmos. Potencialmente competimos com todas as pessoas, colocando indícios diários nas redes sociais de como somos felizes e bem resolvidos e quando colocamos a cabeça no travesseiro temos que enfrentar nossos próprios fantasmas e demônios.

Como solucionar isso? Evitando-os. Então vamos à balada até a exaustão, bebemos até perder a consciência, viajamos para qualquer lugar, trabalhamos compulsivamente, transamos com quem for possível e comemos até não caber mais, porque assim não precisamos respectivamente estar alertas, acordados, olhando para o que incomoda, voltar pra casa, dormir sozinhos e aceitar o buraco interno.

Recorremos a qualquer atividade que nos segure no raso e nos exima de encarar o vazio existencial que habita dentro de nós.

Sabemos que somos responsáveis por nosso próprio fracasso ou sucesso e talvez esse seja o maior desafio, justamente de mostrar o que somos, de encarar que a realidade não é aquilo que vendemos em fotos montadas, editadas e filtradas.

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Abrir mão de ser aquele porco da mitologia que vive em uma fantasia onde tudo tá tranquilo (tá favorável) é fundamental para entender o que buscamos com os comportamentos que temos.

Acordar para quem se é requer desapego de quem você imagina ser, mais do que isso, requer coragem de admitir que por trás dessa fantasia que insistimos em vestir existe um ser com necessidades que estão sendo atendidas de maneiras que poderiam ser melhores do que por música alta, álcool, drogas, viagens, sexo, trabalho e comida. Por trás de todas essas fugas existe uma parte dentro de nós pedindo ajuda e por vezes implorando para ser ouvida.

Quando não é ouvida, o resultado não é difícil de notar. Quase sempre a sensação de vazio aumenta e acabamos buscando por mais do mesmo, transformando essa necessidade de preenchimento em uma prática rotineira que nos leva a constantes frustrações, arrependimentos e incertezas sobre quem realmente somos e o que queremos.

Esta reflexão é pertinente em todos os momentos de nossas vidas, afinal, até que ponto fazemos o que queremos e até que ponto queremos o que fazemos?

Thales Paiva
é psicólogo, coach e palestrante. Desenvolve trabalhos voltados para a descoberta da missão e propósito de vida das pessoas.
Seus textos são sobre comportamento, conquista de objetivos e propósito de vida.

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