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O Monstro que Habita em Mim

Em “O Médico e o Monstro”, Robert Louis Stevenson aborda a dualidade do ser humano, a eterna disputa entre um bem e um mal que acreditamos existir dentro de nós.

De um lado temos Dr. Jekyll, um médico pesquisador bem visto pela sociedade e do outro Mr. Hyde, que é referido como uma criatura (menos do que um homem quase indistinguível de um animal) “que fazia o sangue dos outros tremurar e, se o diabo tivesse uma assinatura, essa seria a de Hyde” e ambos são duas facetas de uma mesma pessoa.

Em um trecho, Stevenson resume bem este conflito:

“A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência – o moral e o intelectual -, eu chegava cada vez mais próximo daquela verdade cuja descoberta parcial tinha-me condenado a um terrível fim: o de que o homem não é apenas um, mas sim dois. E eu arrisco a suposição de que, ao final, o homem será sempre multifacetado, incongruente e independente de vários alienígenas que nele fixam residência.” – O Médico e o Monstro

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É comum buscarmos explicações demoníacas, animalescas ou monstruosas para atos moralmente condenáveis. Destituir a pessoa do patamar de humano nos tira a possibilidade de sermos iguais ou porventura possuirmos comportamentos que se assemelhem ao que repudiamos.

Ao longo dos tempos a sociedade vem colocando facetas específicas para cada tipo de comportamento que tem dificuldade em aceitar.

No reino animal temos muitos exemplos, começamos pelo clássico “viado” para homossexuais, “vaca”, “galinha” e “piranha” para as promíscuas, “cachorro” para os promíscuos e vários outros que exploram equinos, suínos, primatas e outras ordens e famílias.

Quando o assunto fica um pouco mais agressivo, os nomes passam a ser direcionados a um ser abstrato. A incapacidade de lidar com o comportamento do outro nos leva a empurrar a personalidade da pessoa para mundos monstruosos.

O sujeito que matou friamente deixa de ser um sujeito e se torna monstro ou demônio. Uma tentativa desesperada de mostrar que não somos iguais e que dentro da nossa humanidade não existe nada nem ninguém capaz de cometer tamanha barbárie. Aquilo só poderia ser obra de um ser maligno, bestial, monstruoso e demoníaco.

Retirar a responsabilidade da humanidade dos acontecimentos é se atirar em uma ilusão em que percebemos o mundo como injusto, mas que nessa injustiça somos apenas vítimas.

Grande engano.

Os galos não estão criticando as galinhas.

O boi não reclama do comportamento da vaca.

O monstro que mata não tem formas exageradas.

Somos todos nós!

O ser que pratica a violência e o ser que é violentado são da mesma espécie.

Aquele menino morto na zona de conflito com uma bomba que vem do céu, uma bala que o encontrou ou um mar de lama não foi morto por um monstro que se esconde nas profundezas de alguma floresta assombrada.

Aquele menino sou eu.

Aquele menino é você.

Aquele menino só é aquele menino porque ele estava naquele lugar e aquele lugar poderia ser o nosso.

E o monstro, de alguma forma, também.

“Nesse instante, o espírito do mal despertou-me e enfureceu-me. Com um transporte de alegria infernal, ataquei o corpo indefeso, gozando deliciosamente cada golpe que desferia. E foi só quando a fraqueza do braço deu sinal que eu de repente, no auge da fúria, senti-me tomado por um arrepio de terror.” – O Médico e o Monstro

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Ainda que repudiemos determinado comportamento, aceitar que ele é fruto do ser humano é perceber que a sociedade pode fazer algo sobre isso. Com os recursos internos necessários podemos educar e criar pessoas melhores, que podem assumir as próprias responsabilidades e os próprios comportamentos.

Só podemos modificar o que existe em nós mesmos e enquanto isso for atribuído a outro ser, será impossível fazer qualquer coisa que não seja pela força, pois é assim que dominamos outras espécies. Enquanto formos monstros ao punir os monstros, teremos cada vez menos humanos e mais justificativas para monstruosidades, aceitando o que se repudia como forma de lidar com o erro alheio.

E é aí que vem Gandhi com “olho por olho e o mundo acabará cego”. Se mostramos aos mais jovens que ser monstro quando conveniente é o certo, sempre teremos alguém disposto a ser mais um e em breve estaremos todos cegos.

Aceitar o ser humano como ser em mudança e em constante aprendizado é compreender que os erros são possíveis e que nessa hora não é um monstro, é uma pessoa e essa pessoa pode sim se tornar alguém muito melhor. E pasme, esta pessoa de alguma forma também é capaz de amar.

Talvez aquela pessoa que chamamos de monstro seja apenas o reflexo de algo que existe dentro de nós e que uma hora ou outra vai nos confrontar. Viver é resistir. É chegada a hora de aceitar a dualidade e assumir nossas ações ao invés de cegamente lamentar a fragilidade perante os males do mundo. Que o ser humano de cada um resista a todas essas ilusões… E o monstro que habita em mim saúda o monstro que habita em você!

Thales Paiva

é psicólogo, coach e palestrante. Desenvolve trabalhos voltados para a descoberta da missão e propósito de vida das pessoas.
Seus textos são sobre comportamento, conquista de objetivos e propósito de vida.

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