Só se fala no Rock in Rio nos últimos dias, tanto assim que um post meu de setembro de 2011 voltou a ser acessado com bastante frequência no sistema de buscas. Nesse texto eu conto um pouco de como foi a minha experiência lá em 1991, e de como fazer parte de um festival desse porte nos transforma e como é poderoso esse “sentir-se parte”.

Cena icônica do show do Queen em 1985 no primeiro Rock in Rio

Cena icônica do show do Queen em 1985 no primeiro Rock in Rio

Relendo esse post hoje ele parece uma ficção, especialmente depois de assistir aos shows do festival que está acontecendo agora no Rio de Janeiro. O que sê vê na televisão (sim, o festival é televisionado!), é um verdadeiro mar de celulares, bracinhos de dinossauros erguidos, tentando captar o melhor foco de um momento que devia estar sendo vivido em sua plenitude, para assistir em casa depois, para compartilhar nas redes sociais e “pagar” de antenado.

Apresentação do Queen em 18/09/2015 no Rock in Rio

Apresentação do Queen em 18/09/2015 no Rock in Rio

Ao ver essa cena com milhares de celulares, que vista de longe lembra um pouco o hábito que os jovens fumantes tinham nos anos 80, de erguer isqueiros acesos nas baladas tocadas em shows, a única palavra que me vem na mente é desperdício. De tempo e de dinheiro pois, na tentativa de captar o melhor ângulo não se está vivendo aquele momento, que custou uma dinheirama diga-se de passagem,  é como se abandonássemos o protagonismo da própria história.

Digo isso com experiência de causa. Quando meu filho mais novo nasceu em 2010 meu marido estava então receoso de ter uma queda de pressão do mesmo modo que teve no nascimento da minha filha, que estava evitando olhar para o parto em si. O Dr. Messias anestesista sugeriu que ele que visse o parto pela lente do celular, usando a desculpa de fotografar o momento exato da chegada do pequeno Joaquim. Desse modo meu marido tirou o foco da situação e era como se ele não estivesse ali, apesar de ter registrado o momento.

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Outro exemplo muito corriqueiro na minha vida são as apresentações escolares dos meus filhos. Para quem não sabe, meu marido trabalha de turno e muitas vezes é impossível estar presente em todas as ocasiões; por isso ele me pede para registrar esses momentos para que ele possa participar depois. É batata! Toda vez que preciso filmar me emociono bem menos. Fico preocupada com o foco, se estou tremendo, se ele vai conseguir visualizar direitinho depois… é como se eu não estivesse inteira ali.

Lá em 2014 passei um período sem celular  e recomendo fortemente essa experiência para qualquer um que deseje viver uma vida de verdade.

Uma coisa que me deixou bastante contente foi a reação da minha filha de 11 anos ao presenciar estas cenas do povo de celular na mão, ela disse:

“Como pode a pessoa ver uma coisa pela tela do celular em vez de viver essa emoção?”

Eu respondi:

“Boa pergunta Sofia, boa pergunta!”

 


Anna Carla

Santista ”da gema”. Uma mulher dos anos 50 nascida em 73. Mãe da Sofia desde 2004 e do Joaquim desde 2010. Advogada formada pela Universidade Católica de Santos desde 2001. Costumo dizer que me interessam coisas legais em sentido amplo e estrito. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer. Veja o perfil completo.

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