vida simples

Você organiza o seu lixo?

Ou o que o lixo  tem a ver com compaixão?

Todos os dias de manhã cedo, por volta de sete e quinze,  quando vou levar a minha filha na escola, cruzo com pessoas muito importantes. Fico encantada com o entusiasmo e bom humor dessas pessoas! E o que inicialmente era um diálogo silencioso de sorrisos passou a ser uma troca de gentilezas com  eles me dando passagem e agora já é uma amável troca de bom dias. Essas pessoas extremamente bem humoradas são as margaridas e lixeiros que fazem a limpeza do meu bairro.

Desde sempre meus pais me ensinaram o jeito certo de “amarrar” o lixo. Meu pai costumava dizer que os outros não precisam ver o que a gente está jogando fora, especialmente se é lixo de banheiro. Minha mãe me ensinou o cuidado que se deve ter ao descartar vidros, objetos pontiagudos e restos de comida. Restos de comida se congela para não feder e coisas que podem ferir aquele que recolhe o lixo devem ser muito bem embaladas e se possível com um aviso de “cuidado vidro” do lado de fora. E tudo isso eles me passaram muito antes de toda essa vibe de preservação ambiental e reciclagem que nos faz olhar com mais atenção para o próprio lixo.

Talvez meus pais não soubessem muito bem o que estavam fazendo ao me ensinar esses conceitos mas, hoje vejo que embutido aí estão duas coisas muito importantes que procuro passar também para os meus filhos: a empatia e a compaixão.

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Meu pai dizia que media-se a riqueza de uma casa e de uma família através do lixo que dela era descartado. Sempre achei que ele queria dizer que o que denominava essa riqueza eram  a quantidade de embalagens, os pacotes de biscoitos caros e garrafas de refrigerante quase sempre escassos no nosso lixo. Hoje entendi o que ele queria dizer com “riqueza”.

Obra de arte feita a partirde lixo, por Vik Muniz.
Obra de arte feita a partir de lixo, por Vik Muniz.

Esse entendimento veio nesta manhã de terça-feira, quando fiquei um pouco triste (empatia) ao presenciar meus amigos tendo uma dificuldade imensa e correndo riscos para recolher o lixo de uma casa. Casa esta muito bonita, com carrão na garagem e tudo mais.

Ao levantar o saco imenso e  mal fechado voaram embalagens caras, restos de comida, garrafas de vidro (!!!) e lixo de banheiro. E no meio de um lixo tão caro vi tanta pobreza … De empatia e de compaixão! Quanta falta de consideração com aquelas pessoas que com um super bom humor tratam de manter limpas as nossas vias públicas.

Meus amigos não se abalaram muito não, seguiram com seu trabalho e mesmo passando por tamanha situação constrangedora me cumprimentaram como o de costume com sorrisos e bom dias.

A compaixão (do latim compassione) pode ser descrita como uma compreensão do estado emocional dos outros. Ter compaixão é permanecer num estado emotivo positivo, enquanto tento compreender o outro, sem invadir o seu espaço. O foco principal da compaixão é o alívio da dor e sofrimento alheios.

O primeiro passo para cultivar a compaixão, é desenvolver empatia pelos os seres humanos e por você. Muitos de nós acreditamos que temos empatia, e em algum nível quase todos a praticamos. Mas muitas vezes nós somos centrados em nós mesmos e deixamos nosso senso de empatia enferrujar. Esquecendo de “amarrar o lixo” por exemplo.

Sentir compaixão é muito diferente de sentir pena, a compaixão é um sentimento que nos fortalece e independe de religião. Disse o Dalai Lama:

 “A compaixão e a bondade são indispensáveis. Sem esses valores não há felicidade. Mas muitos crêem que a prática de valores como a compaixão, o perdão e o amor são relevantes apenas para os que praticam uma religião. Isso não é verdadeiro. Podemos ver que no passado e presente existiram pessoas que mesmo sem nenhuma fé religiosa tinham esse sentimento de cometimento, de responsabilidade, de compaixão pelo próximo. Essas pessoas se tornaram mais felizes, mais úteis, mais benéficas para a sociedade.”

É como diz o velho ditado: “Não adianta fazer yoga  e deixar de dar bom dia ao porteiro”.

Para encerrar, deixo com vocês esse vídeo maravilhoso Caminhando com Tim Tim para que aprendamos um pouco com ele (e possamos passar adiante para os nossos filhos) a prática da compaixão e “que o chegar não é mais valioso que a andança e que o encontro é precioso e necessário”.

 

Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

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