vida simples

A dor e a delícia de amamentar

Eu tive a sorte de amamentar meus dois filhos. Digo sorte, porque hoje, em pleno 2015, ainda existe muita falta de apoio para a mulher que deseja amamentar, além de outros fatores bem pessoais que vou colocar a seguir.

Quando tive minha filha em 2004, apesar de estar com 30 anos, eu era surpreendentemente despreparada para a maternidade de um modo geral, quanto mais para amamentar! Quando se é mãe de primeira viagem é preciso desenvolver uma estrutura muito forte e grandiosa para superar um desafio muito importante: os palpiteiros de plantão.

De repente todo mundo (inclua aqui até quem nunca teve filhos!) sabe o que fazer em todas as situações (!!!) e, ao te ver na plenitude do seu puerpério, se sente absolutamente à vontade para dar sugestões, muitas vezes esdrúxulas, em momentos que você só precisa mesmo é de um abraço.

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O fato é que a amamentação da Sofia foi bem complicada no início. Sou muito branca, a pele do meu seio era muito fininha e delicada e apesar de ter tomado sol na gravidez, infelizmente não foi suficiente. Tive rachaduras nos mamilos que foram bastante doloridas.

É claro que teve gente que veio buzinar na minha orelha dizendo que a culpa era minha que não tinha ensinado a pega correta para minha filha (oi??? – mas também não me ajudou em nada na “correção da pega” né migs?). Meu seio ficou tão ferido que teve gente que duvidou que eu conseguisse prosseguir. Acreditem, não há nada pior do que cochichos deste tipo pelas costas porque essas coisas sempre, sempre, de um jeito ou de outro, vem à tona.

Não bastasse isso, na segunda semana de vida dela, eu já com os seios bem prejudicados mas persistindo bravamente, alguma “alma boa” passou sapinho pra minha filha e acabei contaminada. Neste ponto minha filha já mamava meu leite junto com sangue e, apesar das dores lancinantes e do desespero eu não pensava nem um minuto em desistir!

A Sofia parou de ganhar peso. Isso foi suficiente para que chovessem críticas na minha horta dizendo que eu tinha que complementar com fórmula, que a menina precisava recuperar o peso etc, etc…

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Sofia então com 1 e 2 meses.

Foi então que tive apoio incondicional da pediatra dela, Dra. Célia Cristina Lopes Machado e  da minha ginecologista, Dra. Márcia Agrisani Garcia.

Tomei os antibióticos para curar o sapinho, fazia compressas com casca de mamão gelada nos seios e persisti amamentando. A natureza é tão maravilhosa que minha filha foi medicada e curada pelo meu leite! Esse mesmo leite que serviu para fortificar a pele do seio, uma vez que passado o sapinho eu usava o próprio leite como pomada para nutrir e engrossar a pele do mamilo.

Passada mais uma semana, minha filha retomou o ganho de peso lentamente e foi ficando cada vez mais forte. Alimentei minha filha exclusivamente com meu leite até os 5 meses, quando iniciei a introdução alimentar por ter de retomar o trabalho, mas persisti amamentando-a até 1 ano e 8 meses quando, por vontade própria, ela deixou de mamar.

Engravidei do Joaquim seis anos mais tarde, feliz da vida por estar com a Artrite Reumatóide controlada e vislumbrando a possibilidade de amamentar novamente!

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A essa altura da vida, com 36 anos, eu já estava escolada com os palpiteiros que, desta vez estavam mais sossegados, haja visto meu procedimento com a Sofia onde persisti na amamentação contra tudo e contra todos.

É engraçado como o segundo filho faz de você uma nova mãe, nem melhor nem pior que a primeira, mas sem dúvida diferente! Apesar das limitações do meu físico, o Joaquim encontrou uma mãe menos ansiosa, mais tranquila e sem dúvida, um pouco mais experiente.

Como eu já tinha a Artrite eu engravidei sabendo que talvez, dependendo de como a doença fosse se comportar depois do bebê nascer, eu não poderia amamentar por muito tempo. Meu reumatologista  Dr. Ricardo Diniz disse que é comum a doença entrar em remissão durante a gravidez e isto perdurar por uns três ou quatro meses no pós parto por conta da alta dos hormônios.

Desta vez eu estava preparada e pretendia amamentar o quanto meu corpo permitisse, já que uma vez que a doença entrasse em atividade eu teria de retomar meu tratamento à base de metotrexate e cortisona, remédios incompatíveis com a amamentação.

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Joaquim então com nove meses.

Uma coisa curiosa: o Joaquim chupava o dedo dentro da barriga, haha! E isso foi um baita estágio para amamentação dele! Assim que viemos para o quarto ele pegou meu peito de primeira! E não largou mais, haha!

Amamentei ele exclusivamente até os seis meses quando introduzi as frutas e o almoço. Quando ele completou sete meses eu comecei a sentir os primeiros sinais de que, infelizmente, a Artrite estava acordando. Corri no consultório do meu reumatologista com uma certa apreensão, provavelmente eu teria que deixar de amamentar.

Foi então que tive o apoio incondicional do meu médico, que compreendeu o meu momento e disse: “sei que você está bem feliz amamentando então vou receitar um remédio para dor que não tem problemas de passar pro seu leite, não vai prejudicá-lo, você pode tomar um comprimido por dia caso esteja sentindo muitas dores. Contudo, vamos ter de iniciar a introdução do jantar dele e eu sugiro que você procure a pediatra para prescrever uma fórmula porque vamos precisar retomar o seu tratamento antes que agravem suas lesões.”

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Foi o que eu fiz.Primeiro a introdução do jantar, com oito meses o Joaquim já comia de tudo! Aos nove meses, introduzi aos poucos a mamadeira para ele/eu acostumar, mantendo as mamadas da manhã e da noite. Depois só de manhã para que ele aprendesse a dormir sem o peito, e ele aprendeu viu gente?

Para minha surpresa consegui levar a amamentação do Joaquim até o dia que ele completou dez meses.No dia seguinte retomei meu tratamento.

Dedico este texto a todas as mães que, amamentando ou não, fazem todos os dias o que julgam ser o melhor para seus filhos.

Dedico também a todos que me apoiaram, que lavaram louça, varreram minha casa e trocaram fraldas para que eu pudesse descansar e manter a sanidade necessária para amamentar, meu filhos agradecem.

 

Anna Carla

Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

2 thoughts on “A dor e a delícia de amamentar

    1. Brenda se você ainda tem muito leite e pode continuar amamentando continue, sua filha vai te agradecer no futuro, beijos!

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