coisas legais

E se a gente chamasse só de beijo?

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Venho ensaiando há dias para escrever sobre a estréia da novela Babilônia. Mas como eu não sou o Nilson Xavier tampouco o Mauricio Stycer  acabei  deixando o olhar crítico sobre a trama, que por sinal estou adorando,  para quem entende do riscado.

Contudo, como advogada, não posso me  calar diante da postura de parte da sociedade em relação ao beijo protagonizado por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg.

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Segundo consta, o beijo foi ao ar no primeiro capítulo a pedido da própria Fernanda, eu particularmente achei uma decisão acertadíssima. Afinal, um beijo entre um casal que se ama há mais de 30 anos é uma coisa corriqueira, que não marca uma data pra acontecer, acontece todos os dias, mais de uma vez ao dia inclusive.

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O que eu me pergunto é até quando vamos achar normal a violência contra os gays e anormal uma simples demonstração de afeto? Porque vejam, fazendo um paralelo com a última novela das 21 horas, Império, assistimos inúmeras manifestações de homofobia e violência e não me lembro de ter visto ninguém reclamar disso. Em nenhum momento se falou em boicotar a novela ou coisa do gênero. Por que raios um beijo incomoda tanto?

Eu fiquei muito feliz de ver o beijo porque sei de muitas amigas e casais que se sentiram representadas ali, da mesma maneira que, infelizmente, vi muitos amigos representados nas cenas de homofobia de Império. Aliás o que me incomodou muito foram as cenas de violência da novela anterior , ao contrário  do beijo de Babilônia.

Minha mãe que tem mais de 70 anos e disse: “sobre o beijo das duas senhoras, sabe que eu  achei bonito? Uma cena de um casal que se ama.” É isso gente, apenas isso.

Nos últimos anos travamos batalhas, juridicamente falando, para garantir direitos a comunidade LGBT, que muitos já tem e foi com muita felicidade que recebi a notícia de o STF ampliou o conceito de constituição familiar. 

Ministra do STF Carmen Lucia
Ministra do STF Carmen Lucia

Para a Ministra do STF, Carmen Lucia, a homofobia não pode ser disfarçada de interpretações equivocadas da Constituição:

“A Constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquela existente ao rés dos fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva. Por isso que, sem nenhuma ginástica mental ou alquimia interpretativa, dá para compreender que a nossa Magna Carta não emprestou ao substantivo “família” nenhum significado ortodoxo ou da própria técnica jurídica. Recolheu-o com o sentido coloquial praticamente aberto que sempre portou como realidade do mundo do ser. Assim como dá para inferir que, quanto maior o número dos espaços doméstica e autonomamente estruturados, maior a possibilidade de efetiva colaboração entre esses núcleos familiares, o Estado e a sociedade, na perspectiva do cumprimento de conjugados deveres que são funções essenciais à plenificação da cidadania, da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho. Isso numa projeção exógena ou extramuros domésticos, porque, endogenamente ou interna corporis, os beneficiários imediatos dessa multiplicação de unidades familiares são os seus originários formadores, parentes e agregados. Incluído nestas duas últimas categorias dos parentes e agregados o contingente das crianças, dos adolescentes e dos idosos. Também eles, crianças, adolescentes e idosos, tanto mais protegidos quanto partícipes dessa vida em comunhão que é, por natureza, a família. Sabido que lugar de crianças e adolescentes não é propriamente o orfanato, menos ainda a rua, a sarjeta, ou os guetos da prostituição infantil e do consumo de entorpecentes e drogas afins. Tanto quanto o espaço de vida ideal para os idosos não são os albergues ou asilos públicos, muito menos o relento ou os bancos de jardim em que levas e levas de seres humanos abandonados despejam suas últimas sobras de gente. Mas o comunitário ambiente da própria família. Tudo conforme os expressos dizeres dos artigos 227 e 229 da Constituição, este último alusivo às pessoas idosas, e, aquele, pertinente às crianças e aos adolescentes. Assim interpretando por forma não-reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso ou homofóbico. Quando o certo – data vênia de opinião divergente – é extrair do sistema de comandos da Constituição os encadeados juízos que precedentemente verbalizamos, agora arrematados com a proposição de que a isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo à formação de uma autonomizada família. Entendida esta, no âmbito das duas tipologias de sujeitos jurídicos, como um núcleo doméstico independente de qualquer outro e constituído, em regra, com as mesmas notas factuais da visibilidade, continuidade e durabilidade”.

Os gays sempre existiram, e eu folgo em saber que hoje eles tem visibilidade porque eu acredito no amor, e é como diz a letra da canção “toda forma de amor vale à pena”.

Só acho que, se você ficou de boas vendo o Leonardo apanhar do Enrico até sangrar e está chocadíssimo com o selinho singelo de duas senhoras, você é que tem um problema.

Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

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