cinema, entretenimento, televisão

Oscar: A Festa que Detestamos Amar!

oscar head

Em meio à chatice das premiações e discursos cheios de nada, ficamos com a celebração do cinema e da confirmação da popularidade da arte.

Está chegando um dos dias mais esperados pelos cinéfilos do mundo inteiro. O dia em que celebramos nosso culto ao cinema, o dia em que torcemos e vibramos pelos astros e estrelas de Hollywood, o dia que conferimos nosso bolão de apostas e sorrimos (ou choramos) com o resultado. Pois bem, está chegando o dia do Oscar!

E, nessa minha coluna de estreia no Caderno de Cabeceira nada mais propício para falar que esse assunto. Passado o carnaval, todos agora podem estar com as atenções voltadas para essa que é considerada a festa definitiva do cinema.

Como todos vocês devem saber, anualmente a Academia premia as produções cinematográficas que mais se destacaram artisticamente. Temos categorias que vão desde melhor ator, roteiro e direção, até os mais técnicos como mixagem de som, montagem e efeitos especiais. Há premiações para filmes de ficção, documentários, e curtas-metragens, de animação e live-action.

Lembro aqui que temos oito produções indicadas ao prêmio de melhor filme este ano, de um máximo de dez possíveis. E por que não houve dez indicados? Simplesmente porque não tiveram votos suficientes para estarem elencados lá. Talvez outros dois títulos que poderiam estar por lá, mas foram esnobados pela Academia seriam o Garota Exemplar, de David Fincher, e o Interestelar, de Christopher Nolan.

E por falar em “esnobados”, dois casos específicos foram foco da mídia como as maiores decepções de não estarem entre os maiores indicados pela Academia. Uma Aventura Lego poderia muito bem estar na categoria de Melhor Animação. Foi um grande sucesso de público e crítica, e inovou na técnica de usar CGI como se fosse um stop-motion. No entanto, nominaram apenas para sua (fraca) canção Tudo é Incrível. Por falar em canção, também teve essa indicação o filme Selma: Uma Luta pela Igualdade (com apenas duas indicações, sendo uma para melhor filme), o que originou uma série de críticas a respeito do racismo na Academia (Selma gira em torno da vida de Martin Luther King, com protagonistas negros, e todos os indicados a melhor ator e atriz são brancos). Particularmente, entendo as críticas, mas as considero descabidas, já que em anos anteriores, vários cineastas negros se destacaram em produções premiadas com o Oscar (como também temos um diretor mexicano entre os melhores da categoria este ano e, vejam só, a própria presidente da Academia é negra). Apenas penso que, desta vez, não houve escolha de papéis por atores negros que demandassem um desempenho que suficientemente chamasse a atenção dos membros. Essa canção que mencionei (Glory, do cantor de R&B John Legend, em parceria com o rapper Common) acho que leva a estatueta, pois é muito impactante e retrata bem o tema do filme.

Essa falta de mais indicações para Selma, principalmente para sua diretora Ava DuVernay, despertou também uma constatação de poucas mulheres sendo indicadas para categorias gerais (digamos unissex) destacando os de direção, e roteiro (adaptado e original). Todos os quinze indicados são homens, demonstrando que, mesmo com empenho, as mulheres ainda precisam ter seu lugar conquistado no mercado cinematográfico. É um retrato da indústria hoje, que pode-se mudar daqui pra frente, quando cada vez mais prestamos atenção e damos importância ao trabalho das mulheres.

Mas voltamos aos melhores filmes em si:

american-sniper-545760a8097961- Sniper Americano é dirigido por Clint Eastwood, que conta a história real do atirador Chris Kyle. Muitos dizem ser um manifesto ao imperialismo bélico americano, mas é apenas um filme bem produzido, com uma visão do lado do exército, nada muito grave que dê qualquer conotação mais violenta ou que trate de qualquer apologia a pensamentos anti-islâmicos ou coisa do gênero. Vejo, sim, como um filme forte, tocante, que ilustra os efeitos traumáticos que a guerra pode trazer aos veteranos. O maior sucesso até agora de Clint, arrecadando muito, mas muito de bilheteria.

 

 

______________________________________________________________

imitation game2- O Jogo da Imitação traz Benedict Cumberbatch no elenco e gira em torno da vida de Alan Turing, matemático inglês que decifrou um código nazista. Tocante e com uma interpretação arrebatadora do protagonista, o filme traz uma junção de temas tão díspares como guerra e homossexualidade de forma tão singela que transparece a competência da produção.

 

 

 

______________________________________________________________

birdman-movie-poster-5097

3- Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é uma história original, que quebra um pouco as regras, trazendo um plano-sequência durante a projeção inteira, pincelado com diálogos inteligentes e dinâmica bem esperta entre os atores. É um filme superestimado pela crítica, que o eleva à categoria de “melhor filme em anos” e endeusa seu protagonista (Michael Keaton) como o favorito na categoria de melhor ator. É que o filme fala da fama, de cinema, dos bastidores, e traz o ator que interpretou o Batman 20 anos atrás, o que agrada o cinéfilo adulto atual. Mas vamos com calma…

 

_____________________________________________________________

Selma_poster4- Selma: Uma Luta pela Igualdade tinha de tudo para estar entre os destaques de indicações: um tema político relevante, produção impecável de época e atuações de destaque. Mas acabou por angariar apenas mais uma indicação (canção – como já dito; causando a polêmica – idem). É assim, uns ganham, outros perdem, mas ambos saem felizes para a festa pós-cerimônia.

 

 

 

 

______________________________________________________________

boyhood poster

5- Boyhood: Da Infância à Juventude é um dos meus preferidos. Filmado durante 12 (doze!) anos, traz a trajetória da vida de uma criança até chegar à fase adulta, usando os mesmos atores. Tem uma carga dramática expressiva, trazendo emoção e simpatia com o círculo familiar da história.

 

 

 

 

______________________________________________________________

the-theory-of-everything-2014-poster6- A Teoria de Tudo traz a vida do famoso físico Stephen Hawking e sua mulher à tela grande. Seu ator é de uma semelhança física e gestual impressionante. Certamente Eddie Redmayne é um dos favoritos na categoria. E é estreante, o que traz ainda mais gosto. O filme em si cai um tanto no lugar comum, mas não deixa de ter sua originalidade e traço emotivo marcante, que merece uma conferida.

 

 

 

______________________________________________________________

budapestep7- O Grande Hotel Budapeste é daqueles filmes feitos pensando na arte, no contexto de composição do cenário que será mostrado na tela. Com uma aura de cores e ritmo que se assemelham à fantasia de nossas mentes, é também um grande indicado, que merece angariar algumas estatuetas.

 

 

 

 

______________________________________________________________

whiplashposter20148- Whiplash: Em Busca da Perfeição é outro forte indicado, que tem como ponto forte a atuação de J. K. Simmons como o rude e explosivo maestro de um conjunto de Jazz de um conservatório musical. Aliado a hipnotizantes sequencias de solo de bateria, o filme traz, pela relação interpessoal, uma questão um tanto conflituosa, porém magnífica, sobre os sacrifícios que podemos escolher para chegar à fama.

 

 

 

______________________________________________________________

Faltou dizer meu favorito, certo? Pois bem, se for contar por uma questão de coração, deixaria como empatados O Grande Hotel Budapeste, com seu primor estético e narrativa bem esperta, e Whiplash, pela carga dramática e ritmo de montagem que me deu vontade de aplaudir ao final da última cena. Agora, levando friamente em consideração o pensamento dos membros da Academia, acredito que o favorito deles seria Boyhood, pelo fato de ter tido um longo período de filmagem e por manter a coesão na história, percorrendo as tendências culturais e políticas americanas da última década.

Mas e a cerimônia? O show das premiações?

nph 2

Aqui chegamos ao ponto central do post. A premiação em si, que nada mais é do que um programa especial de TV, transmitido pela rede americana ABC, ao vivo para o mundo inteiro, por meio de seus parceiros e streaming via internet.

E agora digo o mais curioso disso tudo. É a mistura de meios que o Oscar traz. Estamos aí, com um programa de TELEVISÃO, que acontece ao vivo em um palco de TEATRO, quase como um musical da Broadway, e que celebra a indústria do CINEMA. Nenhum outro programa pode ter tantos elementos desses variados veículos.

Geralmente é um tanto chata a cerimônia, com sua longa duração, seus discursos de agradecimento por vezes enumerando pessoas que pouco nos importa, e ao mesmo tempo seu ritmo apressado para dar conta da quantidade de premiados. Mas sempre temos em mente um momento marcante, como por exemplo a selfie de Ellen DeGeneres ano passado, ou mesmo um discurso realmente convincente. Vamos ver qual momento marcante nos espera para este ano.

Este ano promete ser um dos mais musicais. E o que reforça essa minha afirmação é a escalação, como apresentador, de Neil Patrick Harris. Mais conhecido como o Barney do seriado How I Met Your Mother, o cara é um showman. Canta e dança como um verdadeiro artista da Broadway que é. E tem já bastante experiência em premiações, como no Tony e no Emmy. Até mesmo no Oscar ele já apareceu, mas com um número musical isolado.

Veja só o show que ele deu na abertura dos Tony Awards 2013:

Se a apresentação de abertura for parecida com essa, já vai ter valido a pena.

Como de praxe, haverá um monólogo de abertura, onde o apresentador menciona os principais indicados, com piadas sutis sobre acontecimentos atuais das personalidades, que não duvido que seja um número musical bem chamativo. Escalaram até os compositores de Frozen: Uma Aventura Congelante para criar músicas para o evento, o que denota essa preocupação. E nos preparemos para mais performances, como de todos os indicados para melhor canção (incluindo Adam Levine e seu grupo Marron 5, com a música Lost Stars, como também Jennifer Hudson, Anna Kendrick e até mesmo Lady Gaga confirmando performances) e do já tradicional e melancólico in memoriam, onde nos lembramos dos astros e estrelas que nos deixaram no período. É quase certo que teremos a figura de Robin Williams, ator querido da indústria e morto repentina e tragicamente ano passado, como ponto final do número.

A verdade é que, embora a princípio achemos aborrecida a cerimônia, sempre esperamos ansiosos pela próxima. Talvez por uma questão de paixão pelo cinema, onde finalmente podemos conversar com pessoas não tão entendidas, embora interessadas, seja na mesa de jantar com a família, ou na mesa de bar com os amigos, os assuntos do momento que passamos o resto do ano apenas pensando ou discutindo com seletos amigos cinéfilos. Ou até mesmo pelo fato de termos a satisfação de reconhecer todas as piadas e detalhes da obra dos competidores o que dá um prazer até um tanto egocêntrico de se achar o “entendedor” do esquema. De fato, tenho certeza que ao final da apresentação, não vou querer assistir mais ao Oscar: “é muito cansativo! – penso”. Até o dia seguinte, quando estarei esperando ansiosamente pela próxima: “quais serão os filmes? – indago”.

Vamos lá então, ver os bons e maus vestidos no tapete vermelho, ficar sem entender as piadas sem graça do apresentador e vibrar com os vencedores. Ou até mesmo ficar perdidinho com a tradução simultânea que fazem por aqui. E depois reclamar bastante nas redes sociais sobre qualquer injustiçado. O que vale é que estamos todos envolvidos, e pelo menos por um momento todos centrados em um único assunto: o Cinema!

Até a próxima!

Academy_Award_trophy

ET: A cerimônia do Oscar 2015 será transmitida no Brasil pelo canal TNT, no Domingo, dia 22 de fevereiro, a partir das 20:30 horas (horário de Brasília), com o tapete vermelho, e na TV aberta pela Globo (depois do BBB, o que infelizmente significa que cortarão o começo da cerimônia, mas pelo menos exibirão algo ao vivo e não farão como no ano passado, que deixaram de apresentar por conta dos desfiles de carnaval que passavam ao mesmo tempo).

Gabriel Escudero

Especialista em cultura pop. Cinéfilo graduado em curso de crítica. Pai de dois sapecas. Escreve sobre cinema e entretenimento.

Comente