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A volta de Nightclubbling

 Nightclubbing, de Grace Jones, acaba  de ser relançado. Disco conta com faixas extras.

No começo da década de setenta a menina jamaicana Grace Jones deixou Nova York onde vivia com os pais e os irmãos e se mudou para Paris. Do alto dos seus 1,90, com um tom de pele negro como uma escultura de granito e a aparência andrógina, logo virou sensação no mundo da moda desfilando para Sant Laurent, Kenzo Takada e Jean Paul Gaultier só para citar alguns. Famosa pelo seu temperamento a nega ainda dividia um apartamento com Jessica Lange e Jerry Hall, cujas festas sempre terminavam na delegacia de polícia. Após conquistar o mundo da moda, Grace logo enjoa de Paris, volta para Nova York e passa a frequentar o Studio 54 onde se joga na Disco Music conhecendo então o produtor Tom Moulton, o precursor da “disco music”que ficou vidrado no timbre grave e soturno de sua voz e decidiu gravar um disco com ela. O resultado foram três LPs fantásticos onde Grace gravou covers para a versão discoteque que agitavam as pistas do 54. Clássicos da Broadway como “tomorrow” e ‘send in the clowns” e “la vie em rose” eternizado na voz de Edith Piaf, viraram hits instantâneos nas pistas do 54, com seu canto monótono, soturno embalado por uma banda e orquestra sofisticadíssimos. Ao fim da era “Disco” que durou pouco, já era fim da década de setenta quando Grace Jones voltou sua atenção para um novo campo a conquistar: a new wave. Em 1980, fugiu para Compass Point Studios, em Nassau, Bahamas, onde trabalhou com os produtores Alex Sadkin e o presidente da Island Records Chris Blackwell, bem como um time de músicos radicados pela força rítmica do reggae: Sly Dunbar (bateria) & Robbie Shakespeare(baixo) que trabalhavam com artistas do calibre de Robert Palmer, Tom Tom Club e Talking Heads. A banda ainda contava com a genialidade dos guitarristas Barry White (o próprio!) e Mao Chung, na percurssão Sticky Thompson, que também tocava com o Talking Heads e Tom Tom Club e nos teclados Wally Badarou da banda de Reagge Black Uhuru.

Grace Jones  Warm Leatherette
Grace Jones Warm Leatherette

Em três álbuns de sucesso comercial e crítica que vão de “Warm Leatherette” de 1980 até “Living my Life” de 1982, foi em “Nightclubbling” de 1981 que Grace Jones reinventou a si mesma e mudou para sempre a cara do pop moderno.

Grace Jones - Living My Life
Grace Jones – Living My Life

Nightclubbling, agora relançado em edição comemorativa com faixas extras, já nasceu um clássico.

Grace Jones Nightclubbing
Grace Jones Nightclubbing

Já na abertura do álbum, um cover do Flash and the Pan “Walking in the Rain”, onde ela declama em contralto sobre “Sentindo-se como uma mulher / “Parecendo um homem”. A batida trabalhada por Sly Dunbar com o percussionista Sticky Thompson é deliciosa ao longo dos seus quatro minutos.

Mas é na segunda faixa, onde a coisa começa a pegar fogo. A clássica “Pull Up To The Bumper”, considerada por Sly Dunbar como a melhor faixa do disco e de longe sua melhor atuação na bateria, até hoje não deixa ninguém ficar parado.

Apesar da superbanda, Grace Jones é a estrela aqui. Cinco das nove músicas são covers, mas em vez de fidelidade ao material de origem, Grace Jones soa como se estivesse rasgando o songbook com os dentes.

Ela trata cada canção não como cantora, mas como atriz. Ela zomba da polícia em “Demolition Man” do The Police, como se ela fosse a vilã, inverte o gênero e noções de dominação sexual na lasciva “Use Me” de Bill Withers e conversa com alguem no portão de casa com direito a cachorro latindo e tudo em “Feel Up” de sua autoria.

Na faixa titulo “Nightclubbling” de Iggy Pop e David Bowie ela surge como uma dominatrix, numa versão reggae newwave pra lá de underground.

O tecladista  da banda, Wally Badarou, brilha em todo o disco com seus acordes suaves cheios de clima e densidade e que junto com as guitarras dá o tom new wave do disco. Seu momento chega em “I’ve Seen That Face Before” uma versão de “Libertango” de Astor Piazzolla feita por Barry White para a cantora onde ele evoca um trompete em surdina ao melhor estilo Miles Davis.

Além dos singles e remixes das faixas do disco original, esse relançamento de “Nightclubbing” ainda traz de bonus duas faixas inéditas: “Me! I Disconnect From You” e “Peannut Butter”, com a batida de Pull Up To The Bumper.

“Nightclubbling é considerado um dos melhores 100 discos de todos os tempos pelos críticos e pelo meio musical internacional. A foto da capa é um manequim criado por Jean-Paul Goude que também criou as capas dos três albuns, na época namorado da cantora.

Para quem curte boa música esse é um disco que não pode passar despercebido, ainda mais agora relançado em edição remasterizada. Fica a dica.

Júnior Texaco

Escritor. Fascinado por música, novelas e dramaturgia.

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