para crianças

Bulling: como identificar? O que fazer?

Em tempos de voltas às aulas este nome volta a circular entre pais, professores e alunos.
Minha infância foi nos anos 80 e isso faz de mim e de muitos outros pais, uma sobrevivente. Andávamos sem cinto de segurança o que dirá cadeirinha!
Do mesmo modo a “zoação” daquele tempo poderia, em muitos casos, ser considerada bulling. Cada um se defendia como podia ou como os pais ensinavam.

Lembro-me de quando minha família se mudou para o bairro do Gonzaga, os moleques moradores mais antigos da rua, batiam sistematicamente no meu irmão do meio.

Inconformado em ver o filho subir quase que diariamente com marcas e humilhado meu pai disse a ele:
-“Filho, amanhã você vai descer de novo e se você se deixar apanhar quem vai te bater sou eu.”
Dito e feito.
Depois de dar um soco no meu irmão meu pai disse:” eu sei que você está com raiva mas eu sou seu pai e por respeito você não pode revidar, pega essa raiva e desce agora pra jogar em quem começou isso tudo.” Resumo da ópera: o “Pardal Parafina” ,como ficou muito popular posteriormente,nunca mais apanhou de ninguém e seguiu a juventude com uma conduta pacífica que se estende até a vida adulta.

Talvez por ter presenciado este e outros episódios parecidos na infância, para mim só existia este tipo de violência, a física.
Contudo, existe um tipo de violência muito pior, já que é silencioso e não deixa marcas aparentes. O bulling psicológico.
O que é muito preocupante neste tipo de bulling é que a vítima pode reagir de volta da mesma forma gerando o efeito cascata.

Traçando um comparativo com a minha experiência de infância, de alguma forma sobrevivemos porque os pais notavam a violência e mesmo de um jeito muitas vezes torto, ajudavam seus filhos a superarem.
Atualmente a jornada dupla, as vezes tripla de pais e mães faz com que a criança e o jovem vítima de bulling psicológico passe despercebido.

Minha filha, hoje com nove anos, ingressou na escola pública municipal com 1 ano e meio e lá ficou, por vários bons motivos, até os 5 anos de idade.
Por 3 anos ela foi aluna de período integral das 8 às 17 h e eu perdi as contas de quantas vezes eu fui chamada na escola pela direção para saber o que eu fazia no tempo em que passava com ela, já que ela demonstrava uma segurança tamanha e incomum em crianças de período integral.

A direção notava como ela se saía bem do chamado “preconceito ao contrário” (ela era uma das poucas crianças brancas da turma e a única loura).
Líder nata, fazia amizades facilmente e superava todo e qualquer tipo de dificuldade. E antes mesmo de ser alfabetizada pela escola já escrevia o próprio nome.

A conselho da própria direção da escola municipal decidi transferi-la para uma escola particular, pois segundo a professora e a diretora ela iria progredir mais rapidamente em uma classe com menos alunos já que apenas com os estímulos dados em casa ela encontrava-se bem adiantada perante a turma.

Antes deste relato quero salientar que não tenho absolutamente nada contra a Escola que minha filha está, muito menos contra qualquer outro aluno, pai ou professor.

O objetivo deste post é mostrar que até a criança mais segura do mundo pode vir a ser vítima de bulling psicológico e, se não ajudado na sua condição, pode infelizmente vir a se tornar um futuro agressor.

Matriculei minha filha no primeiro ano do ensino fundamental de uma escola particular imaginando colher todos aqueles frutos “prometidos” pela direção da escola pública.

Me surpreendi não apenas com uma certa queda no desempenho dela ( uma aluna nota 10 passou a ser apenas mediana) mas como uma mudança radical no comportamento. Insegurança, medo do escuro, de monstro, de dormir sozinha, de ficar sozinha, de lugares fechados.

Isso foi realmente muito surpreendente porque minha filha dormiu sozinha no próprio berço e no escuro desde o primeiro dia em que chegou da maternidade! Ela era um poço de segurança e independência! O que fez ela mudar tão radicalmente?

Procurei a direção da escola algumas vezes e inicialmente ela aventou a possibilidade de uma dificuldade normal de adaptação, nada preocupante para escola, já que ela estava dentro da média.
Você que acompanha o Caderno de Cabeceira, sabe que eu faço analise há algum tempo e conversando com minha terapeuta ela sugeriu que eu conversasse com minha filha abertamente sobre o que tinha mudado.

Antes mesmo que eu começasse a “terapia doméstica” minha filha passou a chorar sistematicamente todos os dias ao sair da escola. Ela vinha para casa em prantos durante todo o caminho e tão atordoada não conseguia dizer uma palavra se quer. Preocupei demais, demais.

Um dia em desespero eu disse:
-” Minha filha você precisa me dizer o que está acontecendo com você para que a mamãe possa te ajudar! ”
Ela só conseguiu dizer apenas um nome em meio aos soluços. Nome de uma criança da classe.
Depois disso tive um trabalho de formiguinha, investiguei como uma detetive para descobrir o que estava acontecendo atrás dos muros da escola e porquê uma criança aparentemente inofensiva estava deixando minha filha aos pedaços daquela maneira.

Novamente tive o apoio da direção da escola nesta busca e apuramos que aparentemente o que ocorria era o que ela chamou de “um choque de lideranças”.
Então ela me sugeriu que eu procurasse a mãe da outra criança para conversar. Isso seria uma opção mas eu declinei. Achei que não convinha expor a mim e minha filha recém chegada a uma escola pequena onde todos se conhecem.

Pensei que a prioridade naquele momento era resgatar a auto-estima da minha filha e prepara-la para o mundo, afinal a chance dela encontrar outras pessoas deste tipo ao longo da vida é muito grande. Foi a melhor coisa.
Atualmente minha filha se relaciona bem com todos da escola e aprendeu a se safar de qualquer pressão psicológica sem revidar.

Com o tempo, a ajuda da família e de um ano de ludoterapia as notas foram melhorando assim como o estado emocional dela.
Hoje ela está no quarto ano do ensino fundamental se saindo muito bem obrigada, tem muitos amigos e é feliz novamente.

Meu conselho é ficar tento a qualquer mudança de comportamento do seu filho, ainda que sutil.
A qualquer sinal de bulling informe a escola e procure ajuda.
Ser pai ou mãe parece mas não te dá super poderes.

Para saber mais sobre bulling , faça como eu, leia o best seller:
Mentes perigosas nas escolas – Bulling, como identificar e combater o preconceito, a violência e a covardia entre alunos ( Ana Beatriz Barbosa Silva)

Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

1 thought on “Bulling: como identificar? O que fazer?

  1. Muito bom esse post!!
    É importante mostrar que o bullying consegue minar até mesmo as pessoas mais confiantes.
    Parabéns por terem superado esse fantasma!
    bjss

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