cotidiano

A espera

Na sala de espera muitas pessoas e conversas não tão agradáveis. Cada qual com suas mazelas desfiando seus intermináveis rosários de dores e calvários.
A moça então decidiu que seria melhor ouvir música. Assim apenas visualizava aqueles rostos amenos sem ouvir suas palavras desesperadas.
Diante dela uma velha senhora também esperava. Devia ter mais de noventa anos de idade com a vaidade de uma moça de trinta e poucos e uma meninice encantadora no olhar. Usava sombra verde água nos olhos, blush, batom, era como se a menina tivesse pegado o “case” de maquiagem da mãe e feito aquela festa! Usava brincos, anéis e um belo bracelete que se assemelhava a uma antiga jóia de família. O curioso é que aquela velha parecia não ter história, por suposto não tivera filhos já que estava com uma acompanhante, não usava aliança, nem no dedo de viúva. Aquela velha apenas esperava diante da moça, como uma menina que espera ansiosa na fila da matinê, aquela meninice estrondosa no olhar.
Para a moça lhe parecia que a velha também estava alheia a todo aquele papo furado de sofrimento e dores.
No embalo da melodia a moça balançava a cabeça, batia o pé marcando o compasso, estava completamente absorvida pela música. Para ela era importante transformar àquelas horas de espera em algo prazeroso, aquilo não podia ser perda de tempo, para a moça perder tempo era inadmissível.
De repente se fez a conexão. A velha olhava a moça nos olhos. A velha sorriu e quando a moça percebeu ambas batiam os pés e balançavam a cabeça exatamente no mesmo compasso. Era como se a música transcendesse os fones de ouvido da moça e elas, a moça e a velha passassem a habitar o mesmo universo. Ambas não admitiam a perda de tempo. E muito longe daquelas mazelas e daquelas pessoas desesperadas a moça e a velha esperaram na fila da matinê.
Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

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