cotidiano

Contagem regressiva

Parece que foi ontem.
Estava numa sala quase sem mobília chorando, com medo de sentir falta da casa da minha mãe. O cheiro de roupa limpa secando no varal, da comida caseira feita no dia, dos bolinhos de chuva e do café forte. O barulho, de televisão alta, de rádio na cozinha, de gente entrando, de gente saindo, das gargalhadas das alunas de pintura e o telefone. As fotos do pai e do mano na estante, as plantas frondosas na área de serviço e as lindas violetas na janela. O que eu sempre chamara de lar havia ficado pra trás e pela primeira vez na minha vida eu experimentava uma saudade antecipada.
Para dissipar esse sentimento tratei de enxugar as lágrimas e comecei a semear minha vida aqui, neste apartamento quase vazio.
Aos poucos adquiri experiência de vida, como “dona de casa”, no jardim – aqui plantei minha primeira árvore! Assei biscoitos no forno e passei a realizar minhas “feitiçarias” na cozinha! E finalmente este lugar passou a ter cheiro!
Aqui fui universitária, estagiária e me formei advogada. Amigos vieram, amigos se foram, alguns voltaram e outros mesmo tendo partido continuam comigo em pensamento e coração. Lembrarei pra sempre da varanda cheia de gente nas nossas tertúlias!
O casamento amadureceu, o amor floresceu e aqui fiquei grávida pela primeira vez. Minha menina nasceu e é daqui que ela levará as recordações de sua primeira infância. Aqui aprendi a ser mãe, mas sem esquecer-me de ser filha.
Lá se vão praticamente nove anos e é como se um ciclo numerológico se fechasse e o meu tempo aqui está acabando.
Logo isto tudo será lembrança e eu estarei em casa.
*Na foto: eu no jardim de azaléias da casa da Tia Antônia, São José dos Campos em 1981, atente ao detalhe da Brasília cor de abacate ao fundo, era o carro do meu padrinho.
Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

3 thoughts on “Contagem regressiva

  1. Que delícia de estória Anna! Consigo sentir o cheiro da comida feita e do café saindo. É sempre bom recordar. Olhar para trás e ver quantos momentos felizes… quantas pessoas, quanto amor.
    E que venha mais!
    Saudades d’ôce.
    Beijos apertados.

  2. Nao sei como cheguei a seu blog, mas cheguei e fiquei contente, agora mesmso estou lendo os primeiros post.

    Legal, muito bacana

    saudosoes desde mexico

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