cotidiano

Casa dos espelhos

Caetano disse “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. Pode ser.

Estou vivendo na casa dos espelhos, lendo muita coisa para me ver nitidamente e melhorar minha relação comigo e com o mundo.

Mas a casa dos espelhos assusta. Por vezes você se vê deformado, comprido, torto, diferente do que você pensava ser, mas então você se vê ali e percebe que por debaixo de todas essas impressões tortas e disformes a essência continua lá, persistindo e resistindo às imagens toscas da casa dos espelhos… E é por essa essência que Narciso acha que se apaixona, é com ela que ele se afiniza.

Passa-me um pensamento tentador e horroroso “bom seria se reflexos como este meu caminhassem lado a lado comigo e dividissem suas estórias, seria cômodo, quase perfeito saber o que esperar do meu próximo”… Mas cruzes! Isso seria tedioso demais! Pensando melhor, a vida é feita de surpresas, elas é que dão tempero ao viver neste planeta!

Mas talvez Narciso dissesse: “Não! Isso é perfeito! Olhar diariamente pro seu igual, alguém que reage como você, que pensa como você e que te compreende completamente.” A partir daí Narciso começa a achar feio o diferente.

Sinto muito Narciso, todos somos essencialmente diferentes, as semelhanças são apenas reflexos.

Anna Carla
Mãe, advogada e blogueira. Amo gatos, plantas e vida simples. Escrevo por prazer.

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